sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Whispers

Um dia eu vi que as vozes na minha cabeça tinham boca, olhos e nariz. Tinham pernas e pés, braços e mãos também. Elas podiam andar, correr, pegar e matar. Acho que elas gostavam de seguir essa ordem: andavam até mim, me faziam correr (e corriam atrás), me pegavam e me matavam noite após noite.
Essas vozes odiavam luz, e por isso tiraram toda ela. Transformaram meu quarto em um lugar escuro: as paredes eram pretas e o chão parecia uma das paredes. Eu dormia nele, já que elas levaram a minha cama. Elas também levaram minhas roupas, minha família e a chave da porta. Minha vida era uma noite interminável, no mesmo quarto sem luzes, deitado no assoalho, com medo de levantar.
Comecei a escrever um diário, e as vozes me ditavam o que escrever. Eram coisas tristes, cheias de raiva, de dor e de solidão, Era o mundo que elas conheciam, e o qual me ensinavam a conhecer. Cada dia eu sentia que uma parte de mim se esvaia, eu já não era tão humano assim. Não tinha mais ouvido o som da minha voz, pois eu ficava quieto, apenas escutando. As outras vozes, bem, elas nunca se calavam.
Mas então, parte de mim se perguntou como é que eu via os corpos, se tudo estava escuro e eu não conseguia ver nem o meu? Teriam essas vozes me enganado todo esse tempo, me fazendo viver isolado de tudo por ter medo de ser apanhado por suas garras imundas?
E aí eu ascendi a luz. E não tinha nada. Elas ainda falam, mas nunca mais dei ouvidos a essas vozes filhas da puta. Fodam-se elas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Missing you

I've been far away, through a million skies.
You were at nowhere, nowhere I could see.
I've been lost in the blue, then noticed your eyes
Brown spheres, everywhere, and they hypnotized me.

I always wanted to sail, to take the sea
But my boat, it never left the bay.
And on the ground, I wasn't free,
A voice was calling, from miles away.


It was you, and you're kind of holiness,
Against my soul filled with darkness,
You were the saint, I was the sinner.

I'm still on earth, hands tied with sadness.
Now I know distance dances with badness,
We are the paint, love is the limner.

sábado, 17 de julho de 2010

Killer fangs kissing

Não era tarde da noite, porém era tarde para se chegar em casa. E chovia, uma garoa fina que vinha caindo desde a aurora, trazendo consigo um vento fraco. Se eu pudesse reconhecer temperaturas, acredito que estava frio, e que o ar em movimento era mais gélido que o beijo da morte.
Morte. Beijo. Lábios que tocam suavemente os lábios mortais, e em uma última demonstração de amor, os privam das dores e desesperos deste plano terreno. Não há mais angústias, não há mais o que temer. Um beijo que encerra o ciclo iniciado pelos progenitores, que também se uniram por um beijo. É o mesmo beijo que a mãe dá ao filho quando este nasce. Um beijo que te desprende das correntes do passado, e te lança às embarcações do futuro, onde serás livre para navegar pra onde e como quiser.
Este beijo vai te tirar o Sol, vai te tirar o ar, vai te tirar a vida. Esqueça o que são sentimentos, pois estes não terá mais, e assim evitará as dores. Nunca envelhecerá e nunca sofrerá de doença. Vencerá a morte, assim como eu venci. 
Não é tarde da noite, mas ainda assim é tarde para chegar em casa, tens uma filha a te esperar. Esqueça-a. Estou tirando a mãe desta menina. Ela não vai dormir por várias noites, perguntando-se onde está a mãe adorada. Você não vai dormir noite alguma, e seu único desejo maternal é o de saciar a fome e a sede, com carne e sangue.
Deixe-me beijar-te. Sinta a vida se esvair, e a noite tomar conta de tudo o que há dentro de você. De tudo o que há dentro de nós.

sábado, 10 de julho de 2010

Medo

Não me deixe pensando que as coisas ruins vão acontecer, que há um milésimo de chance de alguém vir e te tirar de mim, nem que seja por alguns minutos. Não deixe que alguém venha e roube teus lábios e teu olhar e o jeito com que segura o meu corpo, nem que seja por uma noite só. Não permita que as doses de tequila te façam agir por impulso, e te mostrem rostos mais belos que o meu, com bocas muito mais atraentes. Não se deixe agir pelo privilégio do segredo, de fazer coisas com alguém desconhecido em um mundo paralelo. Não, por favor não, se dê a liberdade de ter pensamentos desejosos ou sentimentos quaisquer por um nome diferente do meu. Eu te imploro, por favor, não quebre meu coração, como já fizeram tantas vezes. Estou te confiando o que há dentro do peito, e atrás dos olhos, que se enchem de lágrimas ao pensar em não suprir tua necessidade de amor. Eles estão cheios agora, e já faz tempo que precisam esvasiar. Eu te amo, do jeito mais sincero que eu consigo amar, e em função disso, temo a tua ausência no sentido mais denotativo que é possível temer.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Carta de Suicídio

Não sei mais, não consigo mais escrever. Ando desanimado, não falo contigo já faz mais de 24 horas. Não me mate assim, de saudades. Tire a corda do meu pescoço, por favor. Não, são Pedro, vou esperar aqui fora. Esperar minha menina chegar.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Você vai odiar o meu jeito de expressar...

... a tristeza. E também a insatisfação. Porra, eu saí de casa querendo chutar as coisas, saí definitivamente puto. A minha vontade de sentar e chorar era enorme, mas é algo que eu não consigo fazer tão facilmente. Essa tua dificuldade em chutar o balde é a minha dificuldade de enchê-lo de lágrimas. Não sai assim. Eu não consigo adivinhar o que tu sentes e muito menos o que tu pensas. Nunca entendo se é algo que eu disse, que eu fiz, que te desagradou, pois nunca deixa tudo claro pra mim. E é isso que me derruba, não quero ter no meu currículo outros erros que te deixaram magoada. Juro que tento ser o mais compreensível possível, e sei que não sou o tipo de cara que é simples de entender, e menos ainda fácil de se aceitar, mas não podes negar que eu tento. Dos meus diversos defeitos, o orgulho sempre foi um dos maiores traços da personalidade, e não vai ser fácil vencê-lo. O que eu não quero é sair de casa pensando "puta que pariu, o que é que irritou ela tanto?", ou perguntando ao vento se fui eu quem te deixou assim, e se sim, o que foi que fez isso. Já está tudo tão frio, tão morto sem você, que quando o minimo de harmonia some, parece que a esperança se vai pra sempre. E o tabaco e o álcool vão vir, mais fortes do que tudo. Primeiro porque com eles vêm o retrato de como está o espírito: sujo, sem equilíbrio, tropeço e cheio de nauseas. Segundo porque é o que detestas. E é assim que eu tento dizer que estou abatido, irritando os outros. E, mais uma vez, não fiquei embriagado, o que vem se tornando comum, as doses de bebida insistem em me manter sóbrio. E o que me deixa mais depressivo é que não sei com exatidão o dia em que vou te ver, e que hoje a noite, vou dormir sozinho, sem você do meu lado; vou sonhar contigo, e vou estar louco pra chorar todas as lágrimas que estão trancadas atrás dos olhos. Eu preciso pegar o telefone e ouvir tua voz, mas sei que não vai atender, porque é madrugada e tens de acordar cedo. Sei que não vai vir. Sei que tudo parece querer soar mais trágico do que realmente é. E consegue.

sábado, 26 de junho de 2010

Os 63 primeiros dias

O espelho não tem mais graça ao me refletir sozinho. Tua imagem já é parte indispensável do semblante meu. Isso explica o amanhecer mal humorado, pois o reflexo matinal não te mostra. E, como adepto dos pecados capitais, volto a perceber tua ausência através da minha vaidade, que não me tira da frente do espelho. Não apenas este, todo o cenário à minha volta está decorado com lembranças. E eu me agarro nas às fotos, a antigos versos. Me perco nas palavras, nas reclamações, em todas as queixas de mau comportamento, em todas as vezes que eu ri e você amarrou a cara. Você faz com que qualquer outra pareça chata e extremamente imperfeita, e sei que nenhuma delas substituiria o gosto do teu beijo ou os arrepios que tenho ao tocar teu corpo. Você conseguiu fazer aquele que não via a hora de o ano acabar ter medo do fim deste, pois o temor de uma despedida me tira o sono. Longe de ti eu não aguento; ultimamente está difícil de aguentar as lágrimas. Porque insistem em nos manter distantes, meu bem?